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"A chuva contínua e miúda imprime contraste, brilho e intensidade de luz e cor especialmente visível nas plantas e árvores que bordejam o caminho da Senhora da Granja. A variedade de flores e arbustos exala aromas reconhecíveis de esteva, madressilva e rosmaninho.

Muros de xisto guiam os passos até onde o horizonte se abre e grandes pedras espalhadas em diferentes formações captam o olhar. A água acompanha o corpo a caminhar, a registar e o desenho a formar-se mesmo em movimento.
Em Abril, o rio espraia-se em remoinhos cantantes e curvas que lhe dão o nome: Torto. Muda ao longo do dia, nas cintilações, sombras e céu que se projectam, nas flores que ondulam, abrem e fecham, nos insectos e ventos que agitam a superfície das águas.
Sento-me sobre a terra, erva, pedra ou uma ponte, o papel no colo ou sobre o chão à minha frente perante o que olho. As próprias folhas de papel colocadas na superfície incerta absorvem a humidade e as texturas. Folha a folha iniciam-se os cadernos.
Capturando o fugitivo na natureza, desenhando “sur le motif”, a velocidade implicada nos traços tenta captar os efeitos da mudança da luz, do tempo, e a atmosfera do local.
Início de Junho, outros percursos trilhados por Proença-a-Velha. A paisagem muda, é flexível, como todos os seres físicos. O corpo absorve todas as sensações novas e o esboço a configurar-se. Corpo inteiro que atravessa a custo as margens cerradas de erva alta e as pedras grandes que emergem das águas.
O corpo é o limiar de tudo e o instrumento de desenho. 
Percorro as águas do rio Torto, entregue a si próprio, que de vestígios humanos já só vemos as picotas ou burras, bebedouros e pedras escavadas em formas côncavas enigmáticas e as poldras encontradas por acaso.
Partes do rio poderiam ser jardins, tal a profusão e exuberância de cores, luz, cintilação e tonalidades de verde. Num jardim sem jardineiro, a natureza sobrepõe-se caótica a tudo o que foi intervenção humana.
Olhos e mãos anteriormente presos ao visível, na tentativa de encontrar o espírito do lugar, soltam-se no trabalho de “atelier”, onde os olhos vagueiam e deixam a mente divagar.
Configuração e transfiguração de uma terra através do olhar, o desenho da paisagem pode ser ainda o testemunho da experiência de um lugar. O próprio caminhar como uma busca pessoal e irrepetível do desejo de traçar.
Nos últimos dias dei por mim a encaminhar-me sempre para o rio. Apaixonei-me por ele, torto, curva sobre curva a percorrer Proença-a-Velha. Observei nestas terras abandonadas os aspectos positivos do renascer de tantas espécies diversificadas. Urge celebrar a biodiversidade.

 

Paula Rito, Cadernos de Proença-a-Velha 
Abril e Junho de 2018"

 


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